Considerações Psicanalíticas sobre a
relação entre Norma e Norman Bates: Série Bates motel (Filme Psicose).
Considerações Psicanalíticas sobre a
relação entre Norma e Norman Bates: Série Bates motel (Filme Psicose).
O seriado de televisão Bates
Motel é um prelúdio do filme Psicose (Alfred
Hitchcock, 1960), a série retrata a relação complexa e de extrema
dependência entre o jovem Norman Bates e sua mãe Norma Bates. A vida adulta de
Norman e as conseqüências dessa relação com sua mãe estão contidas no filme Psicose, mas para a elaboração deste
trabalho versarei dos caminhos que possivelmente levaram Norman a se tornar
psicótico, relacionando a teoria obtida no semestre com aspectos da relação dual
e fusionada de Norman com sua mãe.
Norman Bates vive um estado
de despersonalização do Eu, isso é visto em seus gestos, seu olhar e pelo seu
comportamento. O pai do jovem morreu quando ele tinha somente cinco anos (fase
fálica do desenvolvimento psicosexual), produzindo um aumento na relação de dependência
e identificação pelo sexo oposto.
O comportamento da mãe varia
de uma frieza mórbida (quando soube da morte do pai, por exemplo) a um estado
de afetividade destemperada. Simultaneamente ela se demonstra muito rígida e dominadora,
controlando as ações e vontades do filho. A série também sugere sutilmente que
há alguns momentos de tensão sexual entre ambos.
O amor narcísico exagerado
que Norma sente por seu filho, filho este que um dia fez parte dela, é a figura
que o Norman busca para permanecer em seu estado onipotência infantil.
Este amor em conformidade com o tipo narcísico
(alguém que um dia fez parte dela mesma) juntamente com comportamentos
controladores, coloca Norman em uma posição fixa e imutável de filho, sem a
possibilidade de construir um Eu individual, separado de sua mãe. Tratando-se
de psicose, vale ressaltar as contribuições de Melanie Klein e o conceito de
posição esquizo-paranóide:
“As
relações esquizóides são de natureza narcísica. Eu projeto meu ideal do ego em
outra pessoa. Passo a amar e admirar essa pessoa porque na verdade estou amando
eu mesmo’’. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – Relações de objetos
Esquizóides - página 32).
Este jogo transitivo onde o
Eu e o Outro estão fundidos produz a onipotência de sua mãe, que tem todo o
saber, impedindo Norman de se constituir como sujeito desejante da
psicanálise. Não permite que o filho
entre em contato com o vazio e a falta constitutiva do ser, uma vez que este possui
o Objeto a proibido, e que é a causa
do desejo. No neurótico o desejo foi reprimido, na psicose está Foracluído.
Lacan indica que na psicose
não há separação entre o sujeito e objeto. O objeto está do lado do sujeito, lhe
proporcionado um gozo narcísico.
‘‘O louco é um homem livre por
excelência, porque ele não precisa do outro pra causar seu desejo porque ele
leva o Objeto a no bolso’’. (Lacan, 1987. p.22).
Outro ponto interessante a
ser observado é a semelhança dos nomes dos personagens principais: Norma e
Norman, mãe e filho, diferenciados apenas pela letra “n”. Como vimos no
decorrer dos estudos, a linguagem a partir do momento que incide sobre o
psiquismo, produz uma cisão que leva a diferenciação dos objetos, de si e do
mundo externo (seria tal questão um fator relevante?).
Buscando fazer uma conexão
com fundamentos teóricos, Norman ficou fixado no segundo tempo do estágio do espelho, onde há uma
identificação com a imagem da mãe (quando adulto Norman passa a se vestir,
falar e se comportar como sua mãe) e com o desejo dessa mãe. A falta de
inscrição da função paterna no inconsciente de Norman impede a introjeção da
lei fálica, não propiciando uma passagem do sujeito do circuito da demanda para
o do desejo. Pelas características dominadoras da personalidade de Norma, é
possível questionar o quanto de importância e autoridade ela deu ao
significante do Nome-do-Pai enquanto
Norman ainda era criança.
No transcorrer do seriado,
Norma começa a se relacionar com um homem, o que acentua a psicose de Norman,
descentralizando-o de sua onipotência. O jovem possui dificuldades em se
relacionar com as mulheres, sua mãe interfere em todas as suas escolhas como
hobbies, círculo social e até seus relacionamentos afetivos.
Em uma determinada cena, durante uma relação
sexual, Norman tem uma alucinação e vê sua mãe pedindo para que ele assassinasse
a moça com qual estava tendo relações sexuais. Norman acata o pedido de seu delírio
e chega ao ato de matar a mulher, não tendo memória alguma após o fato ocorrido
(o personagem sofria ‘‘apagões’’ temporários durante os surtos).
‘‘O
processo delirante é uma tentativa do sujeito de fazer a separação desse
objeto, tentando localizar o gozo num objeto separado de seu corpo’’. (Teoria e
clínica da psicose - Antonio Quinet – O objeto a na psicose – p.66).
A libido do personagem não evoluiu
e se encontra direcionada no próprio Eu (afastada dos objetos), negligenciando
e rompendo a ligação com a realidade externa - característico estado do Narcisismo primário que configura as
psicoses. Trata-se de um mecanismo de defesa contra o princípio de realidade.
De acordo com Melanie Klein,
via identificação projetiva, partes das ansiedades do ego são projetadas para
dentro de um objeto, modificando a percepção sobre ele. Tais objetos passam a
ser vistos como persecutórios, e para se proteger de uma violenta reintrojeção
(represálias) desses objetos sentidos como persecutórios, o sujeito rompe sua
ligação com a realidade.
Referências bibliográficas
·
Inveja e gratidão, Melanie Klein, Ed. Imago, 1957.
·
Narcisismo – Uma patologia do nosso tempo –
Ernesto Duvidovich.
·
Teoria clínica da psicose, Antonio Quinet –
5.ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.

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